Era segunda feira logo cedo e não devia passar das nove da manhã quando Cory e Max entraram na biblioteca da universidade.
-Cory, eu não entendo por que nós tivemos que vir tão cedo. Não podia ser um pouco mais tarde? Tipo depois do meio dia?
-Não, minha sonolenta menina. Depois das onze isso daqui enche e eu não acho que nossa pesquisa seja exatamente algo a ser compartilhado. Vem vamos dar uma olhada nos computadores antes de procurar algo físico. Pela direita.
-Você pode falar que é pelo sigilo, mas eu ainda acho que é por que você não quer que sua namorada me veja contigo.
-Que namorada? A que você inventou agora?
-A que você esconde de mim.
-Olha - disse ele encurralando-a em um dos estreitos corredores da biblioteca - preciso admitir que embora sua pequena demonstração de ciúmes me deixasse com ainda mais vontade de te beijar eu não vou fazer isso, não agora. Então Max, se você não quer ter um beijo roubado, eu sugiro que você pare.
-Eu não sabia de tudo isso.
-Podemos continuar andando?
-Claro. Você se importa de responder uma pergunta?
-Até duas.
-Por que você disse que esse não é, nem de longe, o momento certo?
-Max - disse ele encarando-a - Eu preciso te lembrar o que nós estamos fazendo aqui?
-Não.
-Ótimo - disse ele sorrindo e voltando a caminhar.
-Esses corredores não acabam nunca?
-Estamos quase lá.
-Então, para passar o tempo, poderíamos conversar.
-Claro que poderíamos, sobre o que você quer falar?
-Você vem muito aqui Cory?
-Eu praticamente moro aqui.
-Por que?
-Eu moro em uma república com mais três caras, que horas você acha que eu tenho paz para estudar?  Pronto, chegamos.
-Eu fui lá ao antigo escritório dela hoje de manhã.
-Sério? E como foi?
-Foi bem. A maioria dos funcionários ainda eram os mesmos da época. Disseram que estou a cara dela.
-Bem, o que você descobriu sobre quem ela estava investigando?
-Era um crime de colarinho branco. Algo relacionado a médicos.
-Que tipo de médicos?
-Geneticistas, se eu não estou enganada.
-Sua mãe era ousada.
-Por que diz isso?
-Todos sabem que os médicos são verdadeiro figurões, mas poucos tem coragem de realmente mexerem com eles. 
-Eles só são médicos.
-Eles têm dinheiro. Conseguiu descobrir o que ela estava investigando?
-Não. Só sei que era algo relacionado à médicos.
-Algum nome? 
-Não.
-E se talvez...
-Cory? É você? - gritou uma voz feminina ao fundo.
-Bem aqui Jay. Perto dos computadores.
-Oi, eu bem que pensei ter ouvido sua voz por aqui. Eu bem que achei que talvez você estivesse ficando louco conversando sozinho, mas agora vejo que você não está tão sozinho assim - disse Jay encarando Max. Jay não era muito mais alta ou muito mais magra que Maxine, apenas alguns anos mais velha. Tinha um longo cabelo cacheado cor de fogo que se encontrava preso em um largo rabo de cavalo.  Sua pele era branca e com pequenas manchinhas, exatamente como Max. 
-Ah sim. Jay essa é Max, Max essa é Jay. 
-É muito estranho ver o Cory acompanhado, mas fico feliz que ele tenha arrumado uma companhia.
-Que tipo de companhia você se refere?
-A qualquer tipo de companhia. O que fazem aqui tão cedo? 
-Viemos pesquisar algumas coisas.
-Precisam de alguma ajuda? 
-Na verdade sim. Precisamos dos jornais de 2002, você sabe aonde podemos encontrar? 
-No meu computador.
-No seu computador?
-Sim, no meu computador. Eu sou a bibliotecária daqui.
-Você não é muito nova para isso?
-Não quando esse é meu estágio em biblioteconomia.
-Ah sim. 
-Me sigam. Eu sei que não deveria perguntar, mas Cory, por que 2002?
-Na verdade é para mim. Cory está apenas me ajudando.
-Ah é? - disse Jay virando-se para encarar Maxine - Algum motivo especial? 
-Recortes.
-Recortes?
-É. Um projeto sobre os anos da década passada
-E decidiu começar por 2002? 
-Exato.
-Por que não 2001, quando a década realmente começou?
- Ano em que o Brasil foi pentacampeão.
- Tudo bem, sem mais perguntas.
-Meninas, alguém já disse para vocês como são parecidas?
-O que? - perguntou as duas meninas em coro.
-É. A estatura física das duas é muito parecida, o tom de pele, o cabelo cacheado e volumoso, eu até poderia dizer que a Max tem uma mancha de nascença embaixo do seio esquerdo.
-Cory! - exclamou Jay.
-Eu tenho uma mancha de nascença embaixo do seio esquerdo!
-Viu Jay? Não tem por que você ser tão encanada com a manchinha ou com seus seios.
-Cory, será que você pode simplesmente calar a boca? Por favor. Tenho certeza que a Maxine concorda com isso.
-Não faça mais comentários sobre manchinhas. Ou seios. Ou qualquer coisa.
-Vou ficar quieto até chegarmos lá, mas antes eu preciso dizer uma coisa: vocês não repararam que além de terem uma série de coincidências bizarras, as duas têm heterocromia? Sendo que, nas duas, o olho esquerdo é azul e o direito é verde? 
-E daí? 
-A proporção é de onze a cada mil pessoas. Quais são as chances de vocês duas terem o mesmo "defeito" de visão e serem tão fisicamente próximas?
-Cory, não tem nada de anormal nisso tudo.
-E nós não somos próximas. 
-Não mesmo. 
-Me deem cinco minutos. Tem alguém que adoraria ver isso. 

***

-Uau! Isso é muito louco cara! - exclamou Barry cheio de empolgação - Eu fico realmente muito feliz que você tenha me trazido esses dois exemplares - Jay pigarreou - essas duas adoráveis garotas muito parecidas. Esses dois pares de olhos são fantásticos.
-Nossos olhos poderiam ser diferentes? 
-Claro Max. A começar pela ordem das cores até as próprias cores e o tipo de heterocromia, que em ambos os casos é completa. Heterocromia só atinge cerca de 10% da população e ocorre devido a uma modificação no gene EYCL3 no cromossomo 15, o que diz a quantidade de melanina em cada olho. Vocês são muito parecidas como um todo tendo como única diferenciação a cor do cabelo. Pelo que pude notar, desde a espessura, até tipo de cabelo, tom de pele e biótipo são iguais. Poderia jurar que são irmãs. 
-E a mancha de nascença embaixo do seio esquerdo.
-Cory, qual é o motivo da sua fixação com essa mancha?! 
-Ei, ele está mesmo falando sério? 
-Está.
-Obviamente não vou pedir para vocês me mostrarem por que, vocês sabem, mas qual seria o formato?  
-De estrela - respondeu as duas novamente em coro.
-Isso é, sem dúvida alguma, diferente. Alguma chance de vocês duas serem meu TCC?
-Vá se ferrar Barry - disse Jay levantando-se do quarto de Barry e saindo andando.
-Me dá cinco minutos para falar com ela - disse Cory seguindo-a.
-Não esquenta. Não é nada - disse Barry à Max enquanto fazia umas anotações em seu caderno.
-Eu sei que não é. Coincidências assim acontecem o tempo todo.
-Não Max, eu estou falando do Cory e a Jay.
-Ah isso? Não estou realmente me importando com isso.
-Ah não? - disse ele deslizando os óculos pelo nariz e encarando-a - Tudo bem. Se você diz isso. Mas sobre as "coincidências" - disse ele calmamente - eu acho que seria interessante dar mais uma olhadinha nisso.

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