César, como bom míope que era, colocou os óculos e debruçou-se sobre o computador para trabalhar mais um pouco. Estava cansado e já era tarde, havia passado o dia todo visitando obras e havia voltado ao escritório apenas para terminar algumas considerações finais em alguns projetos, mas o que ele não imaginava é que seriam tantas considerações finais em tantos projetos. Era sexta feira e praticamente todos do escritório já haviam ido embora com exceção de Cássio, seu sócio, que embora tivesse deixado as coisas em cima da mesa parecia não estar em lugar nenhum, 
César era um daqueles caras que toda mãe tem orgulho de falar na festa de natal da família: por volta dos trinta, razoavelmente bem de vida dono de um escritório que embora não faturasse fortunas conseguia se manter de maneira tranquila, estava pagando a longo prazo um apartamento bacana numa parte legal da cidade, não era mulherengo e nem do tipo que esqueceu a mãe quando saiu de casa. Homem trabalhador, não era muito difícil encontrá-lo aos sábados de manhã adiantando alguma coisa para segunda feira de manhã. Ele era o perfeito cara certinho considerado "bom partido" com a única diferença que ninguém parecia interessado nele. E em um desses desinteresses que surgiu o escritório: 
Namorou durante anos uma bela moça que conheceu ainda quando moleque, nos tempos em que o objetivo de um menino era irritar a menina quem ele gostava. Estavam prontos para casar quando uma semana antes ela decidiu partir para o sul do país em busca de espaço dizendo que quando estivesse pronta voltaria para ele. Nunca mais teve notícias dela. Desiludido e com uma bomba nas mãos prestes a explodir, em um bar qualquer lamentando-se das mágoas encontrou Cássio, um velho colega de faculdade que havia largado a Engenheira Civil pela Arquitetura. Entre um lamento e outro tiveram a ideia de trabalhar juntos abrindo um pequeno escritório numa sala velha do pai de Cássio. O negócio cresceu e os dois precisaram se mudar para a pequena casa onde César pretendia morar com a futura esposa. Fizeram uma pequena reforma e por lá estão até hoje. São melhores amigos por convivência e não por afinidade, mas disto não se arrependem. 
César nunca foi exatamente um cara muito atirado então voltar a sair depois de ser largado uma semana antes de subir no altar não foi algo fácil, mas Cássio era um cara extremamente persistente a ponto de apresentar uma amiga a ele. Não era exatamente uma amiga, haviam estudado juntos na escola e retomado o contato anos depois de formados e pensou que o noivo abandonado iria gostar dela: loira com cabelos encaracolados, encorpada, sorridente e com um adorável senso de humor. Até chegaram a sair algumas vezes, mas ele nunca entendeu o que deu de errado entre eles: não estavam juntos, mas eram inseparáveis. Sempre que conseguia arrumar tempo Rita passava no escritório para conversar com os dois, mas Cássio sempre soube que ele era quase invisível para ela em relação a César que havia tornado-se um cara muito mais legal depois que conheceu a loira que era capaz de mostrar quase todos os dentes ao sorrir. 
César nunca mais havia namorado sério depois da noiva, alguns encontros, mas nunca passava disso. Galantear moças por ai não fazia muito o seu estilo, tanto que sentia-se especialmente aliviado quando saía com Rita por não se sentir socialmente obrigado a galantear alguma moça aleatória. Achava tudo aquilo sem sentido, vazio. Sempre achou. Por isso era tão confortável para ele casar com a primeira namorada que tivera: não precisaria nunca jogar o jogo da conquista. Pena que a vida não o poupou de passar por isso. Passava muito tempo trabalhando, gostava de ver o escritório ir para frente, mas mais do que isso, gostava de se esconder atrás de algo que sabia muito bem como fazer. Trabalhou muito para esquecer o noivado interrompido e seguiria trabalhando muito para esquecer que havia coisas que ele era incapaz de executar com perfeição. 

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