César seguiu trabalhando por tempo o suficiente para esquecer por quanto tempo estava trabalhando. Parou um instante e decidiu que havia chegado ao seu limite: apoiou os óculos sobre a mesa e coçou os olhos. Decidido a ir embora, César passou a juntar seus pertences e a planejar seu próximo dia quando escutou alguns barulhos no escritório. Parou: barulho de chaves, risadas, barulho de saltos femininos, passos, conversa.
-Ei irmão, ainda aqui? - perguntou Cássio enquanto sorria - Achei mesmo que ainda estaria aqui, mas esperava que não - disse ele rindo. Cássio poderia ser facilmente confundido com o oposto de César: enquanto César era um cara quieto e contido, Cássio era extrovertido e falante. Sorridente, daqueles que era capaz de animar qualquer tipo de ambiente. Era do tipo que sabia sorrir torto, lançar olhares certeiros e falar algumas besteiras apropriadas. Era quase clichê admitir o quanto paquerador Cássio era com seus olhos azuis.
-Você me conhece, sabe que não largo fácil o trabalho. E você, o que ainda faz aqui?
-Eu estava aqui quase indo embora quando encontrei essa moça loira te procurando então enquanto você não voltava saímos para tomar um café.
-Na verdade, ele ficou com medo que você não fosse voltar e que eu perdesse a viagem.
-Isso é verdade.
-Então, você está pronto?
-Pronto para que?
-Eu não acredito que você se esqueceu.
-Me esqueci do que?
-César, não seja burro! Nós tínhamos marcado de jantar juntos hoje! É a última sexta feira do mês, lembra?
-Sim, sim, claro. Foi só um lapso de memória. Desculpa.
-Tudo bem, te perdoou.
-Qual é o lance de vocês com a última sexta feira do mês? - perguntou Cássio curioso.
-Nós nos conhecemos em uma última sexta feira do mês.
-Você não se lembra quando nos apresentou?
-Claro que não! Você não acha que tenho nada mais para pensar? Quantas pessoas vocês acham que eu apresento todos os meses? Várias.
-Parece que alguém gosta de ser cupido.
-Eu gosto de fazer as pessoas felizes, só isso.
-Apenas não se esqueça, meu pequeno Cássio - começou Rita - que o cupido é um cara solitário.
-Acho pouco provável eu ser um cara solitário.
-Estar rodeado de várias mulheres não quer dizer que você esteja acompanhado.
-E estar com uma específica não significa que faz tudo ficar bem.
-Ok, você ganhou.
-Até quando você vai continuar discutindo isso comigo Rita? Eu sempre ganho.
-Solteirões convictos sempre tem bons argumentos - concordou César.
-Só cuidado para não se tornar um também.
-Não acho que o César leva jeito.
-Por que não?
-Ele só é na dele. Não é como se ele tivesse tido uma chance e jogado-a fora por alguma razão qualquer.
-Não, minha chance só fugiu para o sul uma semana antes de nos casarmos.
-Está vendo? Ele só é na dele. Quando ele encontrar a hora, ele vai saber fazer acontecer. Certo?
-Eu espero - respondeu ele entre risos.
-E você Cássio? Desperdiçando muitas chances por aí por conta de razões quaisquer?
-Eu acho que isso não é da sua conta Ritinha. Vejo vocês segunda - disse Cássio pegando sua blusa e dirigindo-se para a porta.
-Você convive com ele todos os dias, qual é a dele?
-Eu não sei, ele só é ele mesmo.
-Eu só me preocupo com ele, sabe?
-Sei sim. Você se preocupa com todo mundo.
-Vamos?
-Claro.

Deixe um comentário