Deixou os dois amigos no escritório torcendo para que um dia eles pudessem entender quaisquer que fossem as diferenças entre eles para que pudessem ficar juntos. Era um possível matrimônio bastante aguardado na cabeça de Cássio que por sua vez estava cansado naquele dia: olheiras bastante significativas marcavam a parte de baixo dos seus olhos azuis formando um belo contraste entres os dois tons tão opostos, seu cabelo estava ainda mais despenteado naquele fim de sexta feira. Cássio chegou na garagem e decidiu ignorar as compras que acabara de fazer no supermercado e decidiu descer para pegá-las no dia seguinte quando estivesse menos cansado. Adentrou o elevador e cumprimentou gentilmente a garota que já se encontrava la dentro.
-Boa noite Cássio, parece cansado - disse a menina com tamanha naturalidade e sinceridade.
-É por que estou Patrícia.
-Dia difícil?
-Cansativo e o seu?
-Na verdade, foi bastantemente divertido. 
-Por isso ainda está vestindo o uniforme da escola? - disse ele com uma natural acidez entre os lábios.
-As meninas e eu fomos dar uma volta no shopping depois da aula.
-Na verdade foram várias voltas, não foram? - disse ele -  Desculpe-me não quis ser grosseiro. Ou intrometido.
-Tudo bem.
-Eu só estou cansado.
-Tudo bem, faz parte. Meus pais acham que fui estudar.
-Eles ficariam bravos se soubessem a verdade.
-Furiosos. 
-Seu segredo está a salvo comigo Patrícia.
-Obrigada. Olha só, chegamos. 
-Damas primeiro.
-É muito gentil.
-Imagina.
-A gente se vê. E eu espero que você descanse bastante esta noite, está precisando.
-Eu sei - disse ele rindo - Boa noite Patrícia, a gente se vê.
-Boa noite - disse ela enquanto entrava no apartamento em que morava com seus pais. 
Patrícia e sua família era vizinha de Cássio praticamente desde sempre: os pais dele moravam lá quando os país dela se mudaram para lá. Os anos foram passando e crianças foram nascendo. Poucos meses atrás, seus pais tinham se mudado para um velho apartamento no litoral paulista, de forma que ele ainda estava se adaptando a vida solitária de morar sozinho. Os vizinhos eram gentis, isso era verdade, sempre convidando-o para almoços e pequenas comemorações enquanto ele apenas aceitava quando a solidão começava a machucá-lo.
Fez as poucas coisas que tinha disposição para fazer, como comer algum belisco e tomar um banho para relaxar. Vestido em trajes de dormir, Cássio caminhou para a sala e se jogou conta o sofá enquanto colocava em um canal qualquer de televisão enquanto mergulhava em pensamentos e lembranças de como e quais decisões mal tomadas haviam o levado aquela vida solitária de fim de noite. Talvez Rita estivesse certa quando mais cedo naquele dia disse que aquela vida não era para ele realmente, que ser solteirão convicto fizesse parte de um esteriótipo que ele havia feito dele para ele mesmo. Ele estava mentindo para tudo e todos ao longo dos tempos, meio que para manter as expectativas meio por medo de revelar a verdade, mas se havia uma pessoa para quem ele não aguentava mais mentir era para ele mesmo.

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