-Eu queria saber explicar o que aconteceu lá, mas eu simplesmente não consigo. Obrigado por me deixar ficar. – disse César enquanto ajudava Rita a ajustar o sofá em sofá-cama. O apartamento de Rita não era muito pequeno, embora o sofá quando aberto ocupasse quase toda a extensão da sala. A decoração dos cômodos, especialmente da sala, pareciam ter saído de uma revista chique de decoração com paredes alternando tons de verdes e móveis extremamente planejados. Não podia negar que Rita tinha bom gosto, mas era clara a influência dos conselhos de Cássio.
-Imagina, você não estava em condições de ficar sozinho.
-Também não é assim, né Rita?                    
-Claro que é! Você deveria ter visto sua cara quando ela veio te cumprimentar. Você pode me passar o lençol?
-Eu não preciso de lençol.
-O sofá é meu e eu não quero seu suor nele. Você vai usar lençol sim.
-Claro, mamãe.
-César!
-Desculpa.
-Tudo bem, você teve uma péssima noite.
-Sim, eu tive.
-Você quer falar sobre isso?
-Você não vai me deixar em paz até eu falar, não é?
-Não.
-De qualquer forma, eu ainda não tenho palavras para agradecer o que você está fazendo por mim.
-Eu estou te deixando passar a noite aqui, não te doando um rim.
-Mesmo assim.
-Por que você não me conta a sua história?
-Desde o começo?
-Desde o começo.
***
César não devia ter mais de dez anos quando viu Geórgia pela primeira vez e se com aquela idade já tivesse conhecimento sobre esse tal de amor, poderia dizer que foi amor à primeira vista.
Se conheceram na escola, ele avistou ela do outro lado da sala de aula e decidiu que infernizar sua vida era seu objetivo, mas ela não era como as outras garotas que choravam quando alguma coisa acontecia: ela revidada e era isso que ele secretamente adorava nela. Sempre ouviram que aquilo iria acabar em namoro. Os anos se passaram e eles continuaram se provocando mutuamente até que em determinado momento da mocidade, lá por volta dos quinze anos, aconteceu que as provocações tomaram outro rumo e eles de fato começaram a namorar. O namoro foi ficando sério com o passar dos anos tanto que todo mundo que conheciam eles diziam que iriam se casar, de fato eram um casal lindo. No momento em que ele finalmente pediu a moça em casamento os espectadores dessa história de amor não podiam ter ficado mais felizes. Depois de marcada a data tudo ocorreu tão rápido que foi impossível perceber o rumo que os eventos estavam tomando. Geórgia começou a andar distante e cada vez mais indiferente as decisões relacionadas ao casamento. Todos, principalmente César, achou que era a maneira que ela estava reagindo ao stress antes da cerimonia e preferiu dar espaço a ela. O que ele não esperava era como isso iria acabar.
Faltando apenas uma semana para o casamento, César e Geórgia tiveram uma briga na primeira vez que foram dormir na casa nova. Discutiram sobre coisas bobas, trocaram acusações mútuas e foram dormir sem se falar. Na manhã seguinte, César acordou e foi procurar por Geórgia, mas no lugar encontrou uma carta na cozinha onde ela dizia que estava deixando-o e que confiava nele o suficiente pra arrumar a bagunça que ela havia feito. Clichês também foram ditos, como “o problema não é você, sou eu” “você vai ficar melhor sem mim”, pela primeira vez na vida, César chorou.

***
-Então foi assim que tudo aconteceu? – perguntou Rita confortando o rapaz que recolocava os óculos – Hey, você não precisa ter vergonha de chorar.
-Ela me ensinou a sorrir e também me ensinou a chorar.
-Você está melhor? Você parecia ter visto um fantasma.
-Mas é claro, Rita! Ela me deixa, ela destrói minha vida e anos depois quer conversar como se nada tivesse acontecido? Não dá. Desculpa, eu simplesmente não consigo. Eu não consigo encarar ela depois de tudo.

***
César caminhou em direção ao banheiro para lavar a mão quando, quase chegando aos sanitários, esbarrou em uma moça. Ele automaticamente pediu desculpas a ela, mas quando abaixou o olhar para seu rosto não acreditou no que viu:
-Geórgia?
-César! É muito bom te ver.
-Eu gostaria de poder dizer o mesmo.
-Nós deixamos muitos assuntos em aberto.
-Você deixou muitos assuntos em aberto.
-Olha César, eu não quero discutir isso agora, mas gostaria muito de conversar com você. Conversar abertamente com você.
-Porque conversaríamos abertamente depois de tanto tempo Geórgia?
-Eu entendo que você esteja bravo, mas mereço a chance de me explicar para você.
-Depois de cinco anos? Você poderia ter ligado ou você poderia nunca ter partido.
-Eu poderia ter feito muita coisa diferente.
-Você não merece chance alguma Geórgia.
-Eu sei César, mas você merece uma explicação. Você merece entender o que aconteceu. Mais do que tudo, você quer uma explicação sobre o que aconteceu.

“Mais do que tudo, você quer uma explicação sobre o que aconteceu” eram essas as palavras que bombeavam a cabeça de César impedindo-o de dormir. Ele sempre disse querer saber o que havia acontecido com Geórgia, o que havia passado na cabeça dela para jogar tudo para o alto, mas agora, diante da oportunidade de descobrir a verdade, algo o impedia de seguir em direção das respostas que tanto sonhara. 


PS: este capítulo faz parte de uma série de capítulos soltos que estou escrevendo, como ainda não decidi o título e/ou a sinopse, no final de capítulo vou postas os anteriores, ok? Capítulos 1 2 3 

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