Noah acordou. Abriu os olhos e tateou entre os lençóis em procura da esposa. Estranhou o fato de estar sozinho e levantou a procura dela. Caminhou pela casa e se deparou com a ela, já acordada, no quarto da filha do casal.
O quarto era bem pequeno, com espaço apenas para o essencial: berço, comoda, um pequeno guarda roupa para as roupinhas da bebe. Nada demais. Mas mesmo o espaço sendo pequeno, isso não era sinônimo de mal decorado.
-Ei amor, não sabia que já estava acordada - disse Noah abraçando Sami por trás, colando seu corpo ao dela e afastando o cabelo da morena da nuca e depositando pequenos beijos lá - Eu não ouvi ela chorando. Poderia ter vindo aqui por você.
-Mas ela não estava chorando. Então Liz - disse a mãe para a pequena que segurava nos braços perto do berço de madeira - parece que alguém se esqueceu que dia é hoje.
-Do que vocês estão falando? 
-Então você realmente se esqueceu que dia é hoje? - disse Sami virando-se e encarando Noah.
-Desculpa - disse ele coçando a parte de trás da cabeça - Eu não consigo mesmo me lembrar. Eu juro que não é de propósito.
-Pegue aquela sacola em cima da comoda. Talvez você se lembre. - E Noah caminhou em direção a comoda e pegou uma pequena sacola que por lá estava. Dentro da sacola tinha um pequeno embrulho em papel de presente azul. 
-Sami, o que é isso?
-Eu que escolhi. Mas a Liz quem me ajudou - Ainda sem entender o que ela queria dizer, Noah seguiu abrindo o embrulho. Ao acabar, se deparou com um boné verde petróleo - A Liz disse que você ficaria muito bonitão usando isso por ai. Inclusive, ela faz questão que você ande com ele sempre que você for passear ao ar livre com ela. Principalmente se a mãe dela for junto.
-Elizabeth disse tudo isso? - disse ele com um sorriso brincalhão nos lábios.
-Disse. Não está acreditando em mim, papai? - risos.
-Mas Sami, por que tudo isso? 
-Leia o que está dentro do boné - e nesse momento Noah abriu o boné e se deparou com um pequeno bilhete escrito em caneta e com uma caligrafia bonita "Feliz dia dos pais, papai."
-Sami... - disse Noah com o braço trêmulo e com a voz igualmente trêmula - Quantos anos eu não comemorava o dia dos pais. 
-Eu sei disso. Você quer segura-la um pouco? 
-Claro - disse ele pegando a filha do colo da mãe.
-Vou na cozinha preparar algo para o café - disse ela deixando o pai e a filha sozinha.
-Eu adorei o presente Liz - começou Noah - Sabe, em todos esses meses com você, eu nunca tinha percebido que agora eu ia voltar a comemorar o dia dos pais. Eu não comemoro desde que eu tinha uns dois ou três anos... Ou seja, faz quase vinte e cinco anos. E isso é tempo pra caramba Elizabeth. Um dia você vai entender o que são vinte e cinco anos - Noah fez uma pequena pausa e continuou: depois que meu pai foi embora, eu fiquei com raiva do dia dos pais. De ver todos meus amigos falando que amavam os pais, comprando presentes... Como se eles tivessem alguma culpa que meu pai me abandonou. Eu sentia raiva por não ter sido capaz de fazer meu pai ficar. Depois que entrei na adolescência, percebi que meu pai não iria mais voltar e além de queimar tudo que eu tinha guardado para ele, eu passei a ignorar esse dia. Acho que uma parte de mim achou que ignorando o dia dos pais, ignoraria também o fato de eu ter um pai. Um pai que fez questão de me abandonar. Eu sentia raiva. Uma raiva gigantesca dentro de mim que eu sempre achei melhor ignorar. Então eu cresci. Não apenas de idade ou tamanho, eu cresci como um homem. E vi que guardar a raiva que eu sentia de tudo isso, não iria me fazer bem. Acho que como forma de externar minha raiva, eu fiz você - risos - Então você não tem ideia de quanto é intenso para mim pensar que daqui para frente, para sempre, eu serei pai. Seu pai. São tantas oportunidades para acertar, mas são tantas oportunidades para falhar... E eu não vou me perdoar se falhar com você - pequena pausa - sabe qual a melhor parte de ser pai? É ter a oportunidade de acertar os erros e ser tudo o que eu queira ter tido. É dar o que você não recebeu. Não espero que você entenda isso, você nem entende o que eu falo. Mas se tem algo que eu tenho certeza que você entende é que eu te amo Elizabeth.  

Beijos 
S.S Sarfati

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