Eu tinha seis anos quando perdi meu primeiro dente de leite. Achei que tinha algo de errado comigo, então chorei durante dias. Quando finalmente me acalmei, minha mãe veio até mim e me explicou tudo. Que alívio! Quando fiquei mocinha aos doze, também achei que tinha algo de errado comigo. Achei que era hemorragia ou algo assim. Mais uma vez, minha mãe me explicou tudo.Talvez o que me faça falta no quesito "infância" é ter minha mãe sempre pronta para me explicar tudo o que eu precisava saber. Faz falta ter uma mãe "sabe tudo" ao nosso lado. 
Hoje, aos vinte e pouco anos, moro sozinho e tenho o que muitos chamam de  "vida independente", mas que falta faz simplesmente gritar para minha mãe perguntando onde tal coisa estava ou se determinada blusa estava lavando ou passando. Era tudo tão simples. Nossa vida é uma bicicleta, nossa mãe são as rodinhas que nos impedem de cair. Já contei que meu pai tirou as rodinhas da minha bicicleta sem eu saber e eu me ralei toda quando fui andar nela? Até hoje, sempre que olho a cicatriz que tenho na coxa, não consigo perdoa-lo por isso. Foi maldade. E mais maldade ainda foi me deixar sozinha chorando no jardim com um corte sangrando. Ser amoroso não era exatamente uma das qualidades do meu pai. Ele sempre dizia que eu tinha que sofrer para aprender a fazer as coisas. Não sei como, enquanto eu era uma recém nascida, ele não me deixou chorando no berço para que eu aprendesse sair do berço e ir até a cozinha esquentar meu leite. 
Minha mãe, na verdade, era bipolar e depressiva. Não era exatamente fácil conviver com ela. Ela tinha crises e surtos horríveis. Lembro-me de estar sozinha em casa em vários dos surtos dela. Eu me trancava no quarto e rezava para que nada de ruim acontecesse com ela ou com a casa enquanto esperava meu pai chegar de uma das intermináveis noites dele no escritório. Hoje, adulta, desconfio que ele ficasse no escritório todas as noites por mais que entenda que isso seja frequente em escritórios de contabilidade. 
Uma vez ela, sem querer, colocou metal no microondas. Explodiu e ela explodiu também, só que não literalmente também. Foi mais uma das vezes em que eu parava de fazer qualquer coisa que estivesse fazendo e ia me esconder no meu quarto. Quando meu pai viu a situação toda, eles começaram a discutir e gritar até que ele disse que não conseguia mais conviver com ela e que iria se separar. Ela se trancou no banheiro. E nunca mais saiu de lá. Ela se matou. Eu tinha quinze anos.
O Olhos Azuis, por mais próximos que fomos, nunca soube da história toda. Ele só sabia que ela havia se matado por causa do pedido de separação e por menos que ele soubesse, era muito mais do que as pessoas em geral. As pessoas apenas sabiam que ela havia morrido por conta da doença que ela tinha, sem mais detalhes. 
A convivência com meu pai foi piorando ao longo dos anos. Ele não só se sentia culpado, mas me culpava por tudo isso. Dizia que ela não estaria doente se não tivesse tido um bebê (na hora de fazer tava bom, né papai?). Ele deveria ter aprendido a lidar com a doença dela, ele deveria ter lidado com a doença dela.
No fim das contas, apesar dos defeitos, eu sinto falta dela. No fim das contas eu sinto falta da minha infância.

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