O mar é algo tão sublime e paradoxal. Passa uma tranquilidade a quem o assiste porém é agito para quem está dentro dele. 
No último verão fui para praia, faz quase seis meses já. Me apaixonei de tal maneira pela praia que não só prometi voltar uma vez por ano lá, mas como tatuei a palavra "mar" nas costas. Não é muito grande, com uma letra cursiva e entre as escapulas. É bem delicada.
Apesar de não ter muitos amigos, tenho um bom e velho amigo. Nos conhecemos por acaso quando eu ainda estava no Ensino Médio, pegávamos o mesmo ônibus para voltar para casa, eu voltava da escola e ele da universidade. Ele era e ainda é bastante charmoso, não aquele charme típico, mas aquele charme que professores intelectuais têm. Ele é professor trintão de história de Ensino Médio hoje em dia. 
Viajamos juntos verão passado, mas não como vocês estão pensando: somos só amigos. Melhores amigos, mas ainda só amigos. Não pensem que eu estou reclamando dessa condição, gosto de ser só amiga dele. Para ser bem honesta, nunca pensei em ser nada além disso até agora e acho que ele também não. Ele é tão desligado! Por trás daquelas lentes grossas e barba mal feita duvido muito que há um cara interessado em ter uma vida amorosa, ele parece ocupado demais lendo poemas de Fernando Pessoa. Toda via, ele também fez uma tatuagem  sobre o mar no braço esquerdo.
Nossa amizade é simples e direta: dizemos o que temos que dizer quando temos de dizer. Por isso passamos meses sem nos falar as vezes. Na maioria das vezes ele que quebra o silêncio me ligando para contar alguma piada que algum aluno tolo contou e ele achou que eu fosse rir, e na maioria das vezes ele está certo. Ou as vezes aparecemos na casa um do outro com pizza e Coca-Cola. Somos dois solitários, sem família ou namorados, então não temos medo de incomodar ou atrapalhar o outro. Eu não sou próxima do meu pai e ele não tem um. A mãe dele engravidou dele com quinze anos e o pai, maior de idade com medo de problemas, se mandou em uma moto envenenada. Apesar de nutrir certo ódio pelo abandono, ele dirige uma moto envenenada também. Arrisco a dizer que é por certa admiração, mas nunca disse nada. Ele é meu melhor amigo e eu o conheço a tempo o suficiente para entender que ele é exatamente como o mar: calmo por fora e agitado por dentro.

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