A minha relação com a maquiagem começou quando eu devia ter uns quatro ou cinco anos e assim como com quase todas as meninas foi com a minha mãe. Ela nunca foi usuária assídua de maquiagem, nunca foi muito fã, mas de vez em quando ela usava uma coisa ou outra e eu adorava observa-la se maquiando, como se fosse uma espécie de ritual. Até hoje ela não gosta muito, mas usa mais do que antigamente - acho que tem uma influência minha aí. Além disso, por causa das apresentações de ballet eu precisava usar uma maquiagem bastante específica e desde nova eu já tinha vontade de me maquiar sozinha. O que pouca gente sabe sobre mim é que eu tenho uma prima cinco anos mais velha e que se não fosse por ela provavelmente eu não gostaria tanto de maquiagem como eu gosto hoje. Até hoje eu me lembro do estojo lilás em formato de folha de sombras que ela tinha e eu morria de inveja - de tanto que eu gostei, depois de um tempo eu ganhei um pra mim. Eu lembro de ter uns sete anos e ir com a sombra branca desse estojinho na escola e me sentir um máximo. 
Então o tempo foi passando e eu fui ficando cada vez mais interessada no assunto e lia atentamente tudo o que a Capricho falava sobre, até o almanaque de make deles eu tinha! Alguém mais foi assim? Ao mesmo tempo que eu sinto que isso foi ontem, eu vejo quanto tempo já se passou desde então. Lembro de me inspirar em um dos looks do almanaque para a minha colação de grau em 2011. Nessa época eu era meio Emo (e quem não era?) e usava lápis preto no olho às 7h da manhã para ir para a aula e estava tudo bem para mim porque era assim que eu expressava minha identidade. Eu queria gritar para o mundo que tinha um milhão de pensamentos na minha cabeça e esse foi o jeito que eu encontrei. 
Eu fico profundamente incomodada quando nomeiam a maquiagem como algo fútil porque isso obriga as mulheres que querem ser levadas mais a sério a deixar isso de lado quando, na verdade, o ato de se maquiar é algo muito ligado a identidade e como expomos a nossa. Eu não deixo de saber sobre História porque sei fazer o contorno perfeito para o meu rosto. Uma coisa não anula a outra. Eu curto muito me maquiar, mas não é sempre: quase nunca passo maquiagem para ir trabalhar. 
Eu trabalhei com uma moça que estava sempre falando comigo que eu deveria me maquiar, que eu deveria ser mais vaidosa e etc, sendo que eu sou super vaidosa só não é sempre que eu estou afim de demonstrar minha vaidade. Está tudo bem ser desse jeito. Assim como está tudo bem demonstrar sua vaidade o tempo todo ou nunca demonstrar. Minha mãe, por exemplo, não é apegada a maquiagem, mas é uma verdadeira rainha do skincare. 
Muitos dos hábitos que nós, mulheres, temos é uma verdadeira imposição do patriarcado e são tão enraizados na nossa sociedade que nós nem nos damos conta disso: se maquiar, pintar as unhas e carregar bolsa são bons exemplos disso. Todavia, precisamos ficar bem atentos como abordamos o tema para não fazer o que a sociedade patriarcal faz com as mulheres todos os dias: imposições.
A partir do momento em que alguém diz que todas nós devemos parar de nos maquiarmos porque isso não é nada mais que imposição patriarcalista, quem diz isso não apenas está subjugando a inteligência de quem usa  maquiagem, como quer impor mais uma regra para as mulheres. Eu, Sofia, não sou menos feminista por gostar de me maquiar e quem não se maquia não é mais feminista, feminismo não é uma competição de desconstrução. Feminismo é sobre o nosso direito de escolha, não sobre mais regras. Não existe feminista padrão, não existe uma cartilha com as atitudes da feminista perfeita - tanto porque perfeição não existe.  No caso da maquiagem especificamente é importante não usarmos ela como uma máscara para nos escondermos de nós mesmas. Somos lindas com e sem maquiagem. Precisamos estar confortáveis dentro do nosso corpo independente de qualquer coisa. 
A desconstrução acontece para cada uma de maneira e em tempo diferentes. Eu não me sinto nem um pouco oprimida por usar rímel todos os dias, mas tem quem se sinta - e as duas coisas estão ok. O importante é refletir sobre o hábito, seja este ou qualquer outro, e ver se ele realmente faz sentido para você, se ele se encaixa na sua vida. 

Beijos
S.S Sarfati

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