Ela era só uma garota, mas ao contrário da música, ela não estava em chamas. Longe disso. Ela só queria ficar longe da água. Longe da água por que a água estraga qualquer penteado e ela tinha cuidados excessivos com seu cabelo, apenas isso.
Ela caminhava de forma doce e alegre com sua mochila escolar nas costas. Era quarta feira e o dia seria cheio: escola até meio dia e meia, almoço, aula à tarde as duas e depois, caminhar no centro da cidade até as seis - horário que sua mãe iria poder busca-la. Ah, era óbvio que ela tinha um guarda chuva na mochila. Sabe, caso chovesse.
Era cedo, não devia passar das oito da manhã, mas não havia nem sinal de sol. Ela dedilhava, nervosa, na carteira escolar enquanto dizia para si "não pode chover, não pode chover!"
-Perdão, o que disse? - perguntou o garoto sentado atrás dela.
-Nada não. Só não quero que chova.
-Algum motivo especial?
-Não, só me importo muito com o meu cabelo.
-Sabe, vocês meninas são estranhas.
-Estranhas?
-É, estranhas. Não se importam de passar cremes grudentos no cabelo, mas quase morrem quando chove e o cabelo molha. Vai entender. - Ele riu para si. Ela queria dar uma resposta para o tal garoto atrevido, afinal, ninguém fazia piadas com o amor que ela sentia pelo cabelo. Ninguém. Nem mesmo seu pai. Todos a sua volta sabiam quanto o seu cabelo era importante para ela. Ela era alguém que, se caso perdesse o cabelo, ficaria sem seus poderes. Todas suas forças estavam concentradas nos seus belos, brilhantes, sedosos, cheirosos e bem hidratados fios de cabelo. Ela sentiu que deveria responder a altura do menino atrevido, mas simplesmente não conseguiu. Isso era frustante para ela. - Ei, eu só estava brincando. Eu sei como o cabelo é importante para vocês meninas. Eu tenho quatro irmãs.
-Três?!
-Aham. Duas mais velhas e uma mais nova.
-Tadinho, você deve sofrer.
-Nem tanto. Pelo menos ando bem vestido - disse o menino atrevido apontando para si e para o moletom azul marinho que vestia. Que ficava muito bem nele por sinal - E você? Irmãos? -Ela respondeu negativamente com a cabeça e continuou:
-Sou filha única. Mas acho que se tivesse irmãos não teria muito tempo para o meu cabelo.
-Por que não?
-Por que eu iria ter que dividir tudo.
-Não é bem assim.
-Não?
-Não. Cada um tem basicamente o seu espaço. É como se cada um de nós fossemos filhos únicos, porém somos filhos únicos com mesmo pai e mãe. - risos - É bobagem achar que só por que têm irmãos as pessoas perdem seu espaço.
-Eu sempre achei isso. Agora não acho mais! - risos.
-Fico feliz em ajudar - risos - Eu estava pensando se você não gostaria de ser minha dupla no projeto...
-Que projeto?! - primeiro o menino olhou surpreso para a surpresa dela, e em seguida começou a rir - E por que você está rindo?!
-Você não prestou atenção em nada do que o professor disse nos últimos cinquenta minutos?
-Não! - e o garoto continuava a rir - Por que você está rindo da minha desgraça?
-Não é da sua desgraça, é que eu simplesmente não consigo parar de rir! - disse ele parando de rir aos poucos - afinal, você quer ou não quer ser minha dupla?
-Tá, pode ser. E obrigada.
-Disponha.
-E esse moletom, que provavelmente suas irmãs que escolheram, é muito bonito.
-Ah, esse fui eu mesmo - E mais nada disseram. Ela  apenas virou-se e começou encarar a lousa cheia de anotações sobre alguma escola literária que ela não era capaz de identificar qual. Talvez ela pudesse pedir as anotações de um tal menino atrevido de moletom azul marinho... Mas essa questão ficava para depois...



***
Devia ser umas cinco horas. E o tempo estava horrível. Havia garoado na hora em que ela saiu para almoçar e ela fez o impossível para fugir da chuva. Ela havia visto o menino atrevido na escola, e ela até pensou em ir falar com ele, mas na hora tinha uma loira do nono ano se esfregando nele. Esfregando o cabelo e os peitos. Como essas novinhas eram assanhadas! Ela não era assim na idade delas, e o cabelo dela era bem melhor - só para constar.
Ela estava sentada do lado de fora de um restaurante, aqueles que têm mesinhas na calçada, esperando sua mãe. Era o lugar combinado. Ela tinha uma hora ainda para andar um pouco, mas ficou com preguiça. Decidiu sentar e esperar. E o seu plano fluiu perfeitamente nos primeiros quarenta minutos. Nos outros vinte ela decidiu "perseguir" o menino atrevido". Mas não do jeito que vocês estão pensando. Foi algo sensato, "planejado".
Na verdade, foi assim:
Lá estava ela, no lugar combinado, esperando a mãe. Tranquila e jogada contra o encosto da cadeira, enquanto examinava as pontas do cabelo, quando viu alguém que passava por ela deixar cair algo. Ela abaixou para pegar e logo reconheceu o objeto: era um livro de literatura igualzinho ao seu. Portanto o dono só poderia ser da sala dela. Quando levantou a cabeça para ver quem era, ela não acreditou na peça que o destino estava pregando: era o menino atrevido.
Ela sabia que não deveria fazer isso, mas fez: colocou a mochila nas costas e saiu correndo atrás dele. O maior problema era que ela não sabia o nome dele. Não fazia nem ideia de como ele poderia se chamar. Ele poderia ter um nome bíblico como Marcos, assim como ele poderia ter um nome francês Jean. Então tudo o que ela poderia fazer era correr atrás dele.
Ela poderia ter sido inteligente e entregado no dia seguinte, mas não. Ela precisava agir por impulso miais uma vez. O pior é que ele não se tocava que tinha uma louca correndo atrás dele. E quanto mais ela corria, mais rápido ele andava. Até parecia que fazia de propósito!
O que ela não contava, é que a calçada tinha um buraco - e que ela ia enfiar o pé lá dentro. Foi tudo muito rápido e nem deu tempo dela fazer outra coisa que não fosse gritar: em uma hora ela estava correndo, na outra ela estava prendendo o pé no buraco e dando um berro alto e agudo. A única coisa boa disso, é que o finalmente o garoto olhou para ela. E preocupado, ele correu em sua direção para ajuda-la.
-Ei, você está bem?
-Acho que sim.
-Dói?
-Só um pouco.
-Eu não te esperava ver hoje de novo.
-Você deixou cair o livro. Estava tentando te entregar - disse ela entregando o livro ao rapaz.
-Aonde exatamente eu deixei cair?
-Naquele restaurante perto da escola.
-Então você está correndo atrás de mim a cinco quarteirões só para me entregar o livro?
-É - disse ela sem jeito.
-Nossa, eu não esperava. - risos.
-Eu sei. Me ajuda a levantar?
-Claro. - disse ele estendendo a mão a ela.
-Bem obrigada.
-Sem problemas, obrigada eu. - risos.
-Amanhã a gente se vê né? Tchau! - disse ela dando as costas e se dirigindo ao caminho de volta.
-Não exatamente - disse ele impedindo-a de seguir seu caminho.
-Como é que é?
-Nós vamos fazer um trabalho juntos e não trocamos mais de vinte frases. Não acha que deveríamos nos conhecer melhor?
-Melhor como?
-Seu nome, por exemplo.
-Nomes são desnecessários. E acho que já conheço o suficiente sobre você: três irmãs, moletom legal, ombros largos, boquinha fofa. O necessário.
-Espera, você acha minha boquinha fofa?
-Eu disse isso em voz alta?
-Disse.
-Bem, acho. Desculpa? - risos.
-Se desculpar por que? Eu acho você uma das meninas mais lindas que eu já vi.
-Além da boquinha fofa, é previsível! Usando frases clichês para eu ser mais uma da sua lista. Por favor, entre na água e conte até um milhão.
-Ei, eu tenho três irmãs, se lembra?
-O que isso tem haver com fato de você ser um canalha previsível?
-Isso tem haver que eu não sou um canalha previsível. Eu aprendi a respeitar as meninas.
-Clichê
-E você não se acha clichê?
-Eu?!
-Toda preocupada com a escola, com cabelo. Senhorita perfeita. Você só deve fazer isso para agradar as pais.
-E se for? O que você tem haver com isso?
-Eu acho que nós somos dois grandes clichês ambulantes. Dois bobões chatos e previsíveis. Você deve querer mudar isso, não?
-O que você pretende fazer?
-Eu pretendo te surpreender.
-Como você pretende fazer isso? Sabe eu sou uma menina... - ela não teve chance de dizer mais nada. Sua boca estava muito ocupada... Na boca dele. Eles estavam se beijando - e que beijo. Era perfeito. Simples assim, preto no branco. E as mãos dele - não do tipo que agarravam parecendo que queriam a sua pele, mas do tipo respeitosas porém hábeis. Será que ele tocava algum instrumento? Ela se distanciou ele por um instante e disse - Uau.
-Uau? - risos - Isso é tudo o que você tem a dizer? - risos.
-Você beija bem.
-Sério? Por que digamos que eu não tenha muita experiência. Na verdade - disse ele coçando a parte de trás da cabeça - você é a primeira com quem eu treino.
-Eu sou seu primeiro beijo?!
-É - disse ele sem jeito.
-Eu nunca fui o primeiro beijo de alguém! Acho que nem do cara que foi o meu primeiro...
-Então esse é o seu dia de sorte -risos - Eu acho que vai chover. Já senti um ou dois pingos na minha cabeça. Você não quer procurar abrigo?
-Não precisa.
-Não?! - perguntou ele surpreso enquanto sentia seu pescoço ser envolvido pelos braços da menina.
-Não. Eu não me importo tanto assim com o meu cabelo - ela deu um pequeno riso e o beijou. 
Enquanto eles trocavam um longo beijo, puderam começar a sentir pingos de água em seus ombros. Só que a chuva foi engrossando até que eles estavam completamente molhados. E nada melhor do que um beijo em baixo de chuva. 
Realmente, talvez haja mesmo boas razões para molhar o cabelo. 

UM COMENTÁRIO ❤

  1. Oii adorei seu conto parabéns você tem um grande potencial!! Me identifiquei bastante porque o meu cabelo também é a minha força, exatamente como pra personagem do conto!
    Beijos e obrigada pela participação no meu blog espero você lá mais vezes. Ps: o quinto livro da série Desaparecidos chama Missing You.
    www.centraldaleiturablog.blogspot.com

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