A primeira vez que eu ouvi falar na expressão "auto retrato" eu não deveria ter mais do que seis ou sete anos de idade. Foi na aula de Artes. A professora era alta, grande, com cabelos vermelhos que hoje parecem-me não serem naturais, mas na época só o fato deles serem vermelhos bastava para mim. Eu sempre gostei de cabelos vermelhos. Ela mostrou para a turma uma folha de papel com uma gravura e anunciou que a mulher pintada chamava-se Tarsila Do Amaral (o que gerou várias piadinhas entre as crianças pois tinha um menino com o mesmo sobrenome da pintora) e que ela havia sido uma grande mulher. Ela era artista e havia decido pintar a si própria simplesmente por que ela quis, fantástico não? Pelo menos pareceu para mim na época. Dentre todos os fatos que fez dessa mulher quem ela é, um dos mais chamativos foi ela ter decido acabar com o casamento pedindo o divórcio. Sabe quantas mulheres faziam isso naquela época? Poucas.
Mais ou menos dez anos depois tive mais aulas sobre o Modernismo Brasileiro e Tarsila. Tomou algumas aulas de Literatura do última ano, então obviamente o professor não deu muita atenção aos artistas plásticos embora sempre tive a nítida sensação que ele os considerava igualmente importante. Alguns professores têm o hábito de não levarem em consideração quem não são da sua área, ridículo. Eu era especialmente aplicada nas minhas aulas de Literatura do último ano. Adjetivo como "especialmente" pois alguma coisa naquela aula me fazia querer ser não apenas melhor que todos os meus outros colegas, mas melhor do que eu mesma já havia sido antes. Meu professor deu uma aula falando sobre Freud (caso queira entender bem o surrealismo, você precisa entender Freud. Sem isso nada feito), logo depois eu li Freud. Ele comentou sobre a Clarice Lispector comigo (hoje sei que o nome dela escreve-se com C e não com dois "s". Obrigada professor), li Clarice poucos dias depois, e assim por diante. Como disse acima, eu era especialmente aplicada. Ele era legal, apesar de algumas piadas sem graça que fazia com que todos os quase cinquenta alunos se inflamassem de dar risada mesmo assim. Eu gostaria de ter dito a ele o quanto gostava de tudo isso enquanto ainda era aluna dele, assim como gostaria que ele estivesse lendo isso agora e então saberia minhas impressões sobre ele. Sabe por que ele provavelmente não está lendo tudo isso? Por que ele tem uma vida! E eu deveria ter uma também.
Estive doente a semana toda. Estive com infecção de garganta. Legal né? Só se for para você. Faz basicamente uma semana que não saio de casa para absolutamente nada e hoje passei o dia com o meu pijama rosa com nível de sensualidade zero. Já passam de onze da noite e adivinhem o que estou fazendo? Isso mesmo, estou indo em direção ao meu carro azul. Se eu vou para alguma boate me divertir com as minha amigas? Não querido, não sou dessas com vida social. Estou indo ao McDonald's 24 horas que tem aqui perto. Eu poderia estar pensando em como vou engordar comendo fritura a essa hora da noite, mas estou pensando nisso como uma espécie de "recuperação" da minha infecção. Eu devo ter perdido peso com tudo isso, não devo? Eu não só estou querendo afogar minha decepção por ter ficado doente em uma semana como essa ou afogar essa desgraça que eu chamo de vida amorosa que eu tenho, mas sim querendo me afogar no simbolo do capitalismo feroz. Eu poderia continuar falando sobre o capitalismo, mas irei falar sobre algo igualmente frustrante e repugnante (eu juro que não sou socialista): minha vida amorosa.
Não é como se eu nunca tivesse tido ninguém e fosse uma solitária eterna, mas eu nunca tive ninguém que eu quisesse ter, entende? Todos os meus relacionamentos (se é que dá para chamar o que eu já tive de relacionamento) foram algo apenas por diversão, do tipo "adoráveis, porém uma perda de tempo". Eu nunca me envolvi realmente com ninguém e isso me mata. Não é como se eu nunca tivesse interessada em me envolver com alguém, é que quando eu estou interessada a pessoa não está. Um descompasso danado e frustrante. Alguns rapazes já me fizeram felizes, mas nada que eu visse futuro. Nada que eu me envolvesse ao ponto de quando nós inevitavelmente terminássemos (provavelmente por culpa minha, a culpa sempre é minha) que eu chorasse no chão da cozinha relembrando os nossos bons momentos, os dias que nunca mais estarão de volta. Apesar de me considerar uma, bem entre aspas, "artista", me considero também do time das insensíveis sem coração. Será que tem como? Não sei. Será que vou descobrir? Também não sei. Mas honestamente não é isso que me importa agora, por que tudo que eu mais gostaria de saber nesse momento se eu devo comprar o Milk Shake grande ou o médio.
-Senhora, por mais um real a senhora leva o milk shake grande - disse o atendente. Era um rapaz baixinho e de aparelho. Ele não deveria passar dos dezoito anos. Se eu soubesse o que sei hoje aos dezoito...
-Mas será que vale apena? 
-Vem 200 ml a mais por só mais um real, eu acho que vale a pena.
-Claro que economicamente isso vale a pena, mas enquanto gordura localizada...
-Gordura o que?
-Localizada. Na bunda.
-Ah sim, perdão. Ai isso já é da senhora - disse o atendente sem jeito.
-Eu sei que isso já é comigo. É sobre a minha bunda que estamos falando - agora eu pareci grosseira, droga! Odeio parecer grosseira, mesmo que eu seja assim realmente - Desculpe-me, vou querer o grande sim.
-Uma batata grande, um Mc Chicken e um milk shake de chocolate grande? - disse ele enfatizando o grande do milk shake. 
-E a Coca Cola grande também.
-Também?
-Sim, também. Por que? Algum problema? 
-Não.
-Ótimo. Estou frustada, com uma droga de infecção de garganta, com uma vida amorosa que nem Freud iria querer saber e você quer fazer do fato de eu estar tomando milk shake com coca cola um problema?
-Não, de forma alguma.
-Ótimo!
-Quarenta reais senhora.
-Mas que maravilha, agora minha vida financeira também está desgraçada. 

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