Vai parecer muito estranho se eu disser que não consigo ouvir a palavra sertão sem lembrar de "Os Sertões" de Euclides da Cunha? A culpa é do professor de literatura.
Eu era tão feliz quando tudo o que eu fazia era estudar. Sério. Quando se está no Ensino Médio, o Ensino Médio parece uma desgraça, mas depois que a vida adulta começa você percebe que é tudo muito pior. Mil vezes pior. Você tem mais liberdade, isso é fato. E as pessoas que você passa a conviver são menos babacas, mas as responsabilidades, obrigações e contas para pagar são muito maiores também. Eu não tinha contas para pagar quando era aluna do Ensino Médio. Nem conta da cantina. 
Não que eu seja uma pessoa endividada, credo. Eu só sou uma pessoa, digamos, no limite. Eu vivo ao máximo, assim pode-se dizer. Eu posso morrer amanhã então por que não comprar esse sapato preto se eu não vou me individuar? Óbvio que já aconteceu umas duas ou três vezes de eu passar meu limite, mas nada amedrontador ou que não pudesse lidar. Acontece. 
Faz tempo que não dou uma olhada no meu extrato bancário, mas creio que está tudo em ordem por lá: não tenho feito nada ultimamente. Minha amiga é definitivamente um ser inanimado enquanto pizza e refrigerante não custem tão caro. Assim minha vida financeira é na média como tudo o resto que eu faço.
Meu trabalho é na média, nem sei mais por que trabalho no que trabalho. Arrisco a dizer que seja por conta daquele pedaço de papel chamado diploma universitário, mas é só um palpite mesmo. Outro dia estava conversando com o Professor de História sobre isso:
-Sabe de uma coisa Narradora? As vezes me esqueço por que eu sou professor - disse ele entre uma mordida na sua pizza de mussarela e outra.
-Você gosta das crianças.
-Eu sei, eles são chatos e só fazem merda, mas eu gosto dele. É gostoso ver jovens tão de perto quando se tem trinta, mas as vezes eu me esqueço por que decidi ser professor em primeiro lugar. Aquilo que me motivou a fazer História uns dez ou doze anos atrás.
-E o que foi? 
-Eu queria passar o conhecimento adiante.
-Achei que fosse por causa dos alunos.
-Também. Eles são fofinhos, de certa forma.
-Eles tem pele oleosa, espinhas e se acham. Como eles podem ser fofinhos?
-Da maneira deles eles são fofinhos. Quando eu te conheci você também era fofinho.
-Mas eu sou fofinha até hoje.
-Não exagera. 
Acho que todo mundo perde um pouco de direção em certa fase da vida. Com o Professor de História foi aos trinta, comigo é aos vinte e pouco. Talvez perde-se seja o começo para encontrar-se.

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